Os 5 Cs que avaliam as razões para a hesitação vacinal

O texto do Blog da ASTHA Cursos Especializados em Saúde desta semana traz informações para a compreensão dos motivos  para que algumas pessoas hesitem ou recusem a se vacinar contra a Covid 19.

Somos diariamente informados pela mídia, através de entrevistas com diversos especialistas em saúde,  muitos deles médicos infectologistas e epidemiologistas,  de que os riscos de efeitos colaterais graves de uma vacina são minúsculos em comparação com o risco da própria doença . No entanto, o que se está observando a nível nacional e mundial? O fato constatado é que um número considerável de pessoas ainda está relutante quanto à imunização ao vírus SARS CoV2, responsável pela Covid 19.

Segundo a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBiM), o Brasil ultrapassou a marca de 100 milhões de pessoas com imunização completa contra a Covid-19 entre vacinados de duas doses (Pfizer, AstraZeneca e Coronavac) e dose única (Janssen). Apesar disso – diz Juarez Cunha, presidente da SBiM –  ‘há um número expressivo de pessoas que já poderia ter completado seu esquema vacinal ou recebido a primeira dose, mas que ainda não foram aos postos de saúde’.

Como profissionais comprometidos com a Promoção e Prevenção à Saúde, nos perguntamos por que algumas pessoas não querem aplicar a vacina que estimula uma resposta imunológica do organismo contra as complicações sérias da doença causada pela Covid 19?

Uma referência que relata resultados de pesquisas sobre esta questão é muito elucidativa. O artigo em questão diz que  a reação de hesitação de algumas pessoas em fazer a vacina contra a COVID 19 (SARS CoV 2) é uma questão complexa e cheia de nuances e alguns pontos de vista podem ajudar a elucidar o que faz as pessoas decidirem pela negação, mas que não deve haver dúvida de que as vacinas contra a Covid-19 estão salvando vidas.

A atitude de uma parcela da população em negar os benefícios da vacina está se tornando uma espécie de conflito cultural nas redes sociais, onde se leem comentários de que os hesitantes à vacinação são simplesmente indivíduos ignorantes ou egoístas, mas psicólogos especializados em tomada de decisões médicas, argumentam que essas escolhas costumam ser o resultado de muitos fatores complicadores, que precisam ser tratados com seriedade e sensibilidade e que só assim podemos ter esperança de alcançar a denominada imunidade coletiva. O referido artigo nos conduz a algumas colocações que ajudam neste esclarecimento:

Primeiro:  A grande maioria das pessoas que hesitam em vacinar não têm uma agenda política e não estão comprometidas com uma causa anticientífica: elas estão simplesmente indecisas sobre sua escolha de tomar a injeção. A boa notícia é que muitas pessoas que inicialmente hesitaram estão mudando de ideia .

Segundo: o medo de agulhas é a principal razão pela qual muitos relutam em tomar a vacina.

Monitorar as razões pelas quais um número considerável de pessoas não aceita receber as vacinas recomendadas, permite identificar tendências importantes ao longo do tempo, e projetar e avaliar estratégias para enfrentar a hesitação vacinal e aumentar a adesão à aplicação das vacinas. Cientistas exploraram vários modelos que tentam capturar as diferenças no comportamento de saúde das pessoas. Um dos mais promissores é conhecido como modelo 5Cs, que considera fatores psicológicos.

Essas medidas,  que avaliam a hesitação vacinal, e que compõe o 5C, e desempenham um papel na explicação do comportamento vacinal são:

1) CONFIANÇA: a confiança da pessoa na eficácia e segurança das vacinas e no sistema de serviços de saúde que as oferecem e nos formuladores de políticas que decidem sobre sua implementação (preocupações do paciente sobre os efeitos colaterais e o medo de que as vacinas não tenham sido testadas adequadamente);

2) COMPLACÊNCIA: se a pessoa considera ou não a doença em si um RISCO grave para sua saúde;

3) CÁLCULO: o envolvimento do indivíduo na ampla busca de informações para avaliar os custos e benefícios, ou seja, o engajamento em extensa busca de informações pelos mecanismos de busca na internet;

4) CONVENIÊNCIA OU CONTENÇÃO (RESTRIÇÕES AO ACESSO):  quão fácil/difícil é para a pessoa ter acesso à vacina, sejam elas relativas à superação de barreiras estruturais e/ou psicológicas;

5) CUIDADO COLETIVO: responsabilidade e disposição para proteger os outros da infecção ou exposição, por meio da própria vacinação.

Ao considerar esses diferentes fatores e as maneiras como eles podem influenciar o comportamento das pessoas faz com que examinemos os vários vieses cognitivos que sabidamente alteram nossas percepções.

Considerando os dois primeiros Cs – a confiança na vacina e a complacência com os perigos da própria doença, Jessica Saleska, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, aponta que os humanos têm duas tendências aparentemente contraditórias – um “viés de negatividade” e um “viés de otimismo” que podem distorcer as avaliações das pessoas sobre os riscos e benefícios (ler artigo).

O viés da negatividade diz respeito à maneira como você avalia os eventos que estão além do seu controle. “Quando você recebe informações negativas, isso tende a ficar na sua mente”, diz a pesquisadora.

O viés do otimismo, em contraste, diz respeito às suas crenças sobre você mesmo – se você se acha mais apto e mais saudável do que as outras pessoas. Esses preconceitos podem funcionar de forma independente, o que significa que você pode se concentrar nos perigosos efeitos colaterais das vacinas e, ao mesmo tempo, acreditar que tem menos probabilidade de sofrer da doença, uma combinação que reduziria a confiança e aumentaria a complacência.

Também existe o famoso viés de confirmação, que pode distorcer as percepções sobre os riscos do vírus por meio da disponibilidade imediata de informações incorretas de fontes duvidosas (Fake News ou Notícias Falsas) que exageram quando apontam os riscos das vacinas.

Essa dependência de recursos enganosos significa que as pessoas que procuram ativamente os dados em sites de busca na internet (pessoas com pontuação alta na medida de “cálculo” da escala 5Cs) costumam hesitar mais em vacinar do que as pessoas que procuram menos informações (com pontuação inferior na escala 5C).

Um exemplo: se alguém já acha que a vacinação pode ser arriscada, digita: ‘Esta vacinação é perigosa?’ –  Logo, os resultados que  ela vai encontrar no site de busca é a informação que confirma sua visão anterior – afirmam os pesquisadores.

A questão da conveniência precisa ser considerada, especialmente para aqueles que habitam comunidades mais pobres e que podem ter dificuldades com o tempo e as despesas da viagem até um centro de vacinação. “Viajar de lá para cá pode ser um grande problema para a maioria das pessoas que recebem um salário-mínimo ou seguro-desemprego”, conclui Mohammad Razai, do Population Health Research Institute, de St George’s, da Universidade de Londres. É por isso que geralmente é melhor que as vacinas sejam administradas em lugares que permitam o maior acesso comunitário, mais perto do lugar onde moram ou trabalham.

Estar ciente do contexto das decisões das pessoas, diz o pesquisador, como o racismo estrutural, que pode ter levado certos grupos étnicos a ter uma confiança geral menor nas autoridades médicas, na maior parte . É fácil descartar as decisões de outra pessoa se você não compreender os desafios que ela enfrenta no dia a dia.

Então, o que pode ser feito?

Com a vacinação contra a covid-19 em curso no Brasil e em diversos países, a preocupação com a disseminação de notícias falsas, feitas principalmente por redes sociais, tem sido crescente entre autoridades de saúde e alguns segmentos da sociedade, já que elas trazem como consequência um desencorajamento das pessoas a se vacinarem.

Não existe uma solução fácil, mas as autoridades de saúde podem continuar a fornecer informações precisas e fáceis de digerir para lidar com as principais preocupações e a melhor maneira é a informação e a procura de notícias seguras e verdadeiras.

A União Pró-Vacina que é uma iniciativa organizada pelo Instituto de Estudos Avançados (IEA) Polo Ribeirão Preto da USP em parceria com o Centro de Terapia Celular (CTC), o Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias (CRID), a Ilha do Conhecimento, a Vidya Academics, o Gaming Club da FEA-RP e o Pretty Much Science.

O objetivo é unir instituições acadêmicas e de pesquisa, poder público, institutos e órgãos da sociedade civil para combater a desinformação sobre vacinas, planejando e coordenando atividades conjuntas. Entre as ações realizadas estão: produção de material informativo; intervenções em escolas, espaços públicos e centros de saúde; eventos expositivos; combate às informações falsas e desenvolvimento de games.

E neste caso a UP Vacinas é fundamental. O Programa Vacina Talks, realiza quinzenalmente uma Live no YouTube, no formato de bate-papo, que traz como tema as principais dúvidas que a sociedade possui a respeito das vacinas.

Você ainda pode acessar informações nas redes do Instagram(upvacina) Twitter (@upVacina) e Linktr.ee/upvacina

Esperamos ter encorajado muitos profissionais em Saúde a procurar estas referências e compreender por que certas pessoas ainda hesitam em se vacinar e como enfrentar este desafio, utilizando o conhecimento e a informação científica de fonte confiável.

Fonte: Prof. Gisele Cristina Tertuliano, PhD. Enfermeira e Cientista Social e Ana Stela Goldbeck, M.Sc Diretora da Astha Cursos.

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